sábado, 17 de maio de 2008

Casamento

Ele era o mais charmoso. Chegava sempre um pouco atrasado, trocava os óculos escuros pelos de grau, sentava nas primeiras cadeiras e ficava impaciente, olhando tudo ao redor, uma mosca que voava, um pessoa que cochilava, alguém que tentava sair à francesa. Um dia deixou escapar um simpático "boa tarde", depois os papos se estreitaram. Nomes, locais, preferências, datas, gestos, gostos, toques, saídas para jantar, planos, apresentações, descobriram que tinham tudo para fazer feliz um ao outro e logo, já estavam marcando a data do casamento.

Na igreja. Papel passado, branco, comunhão total de bens (mesmo sem ter quase nada) véu, grinalda, daminha de honra, buquet, convidados, presentes, promessas, ah, promessas: "amar, ser fiel, fazer feliz pra sempre ou até que a morte os separe". Era, era amor. Do mais sincero e profundo. Onde um só existia para o outro, como em todo amor. Em casa, a comidinha sempre pronta, roupinha sempre limpa, o abraço sempre apertado, o beijo sempre fogoso. Qualquer minutinho é pra namorar, seja o intervalo do futebol, seja o intervalo da novela. O que importa é dormir abraçado, estilo conchinha. Depois de uns dois, três anos, a primeira gravidez. Ela está linda grávida, um brilho diferente no olhar, um ar doce e acolhedor no sorriso, carregando “um príncipe” na barriga enquanto ele carrega a fama de "rei". Nasce o primeiro filho e com o bebê vêm planos, promessas e a certeza feminina de ter proporcionado uma alegria ímpar ao ver pela primeira vez o olhar do homem que exibe o filho como uma seleção exibe um troféu de copa do mundo e agradece a mulher com um beijo sutil.

Passam os anos, a criança começa a andar, a pedir, a estudar, os defeitos um do outro começam a ficar cada vez mais evidentes, brigam pelo horário, pelo canal de TV, pela família, pelas mudanças e perdas da vida, pelo cansaço, pelo estresse, pela a feira pra fazer e as contas pra pagar. Ele não vê mais o futebol em casa, no intervalo da novela ela troca de canal, e qualquer minutinho é hora de dormir, mas, de costas um pro outro, cada um com seu lençol. "Você está frio, distante" "Impressão sua, querida, estou preocupado com o trabalho, só isso, nossa criança vai bem na escola?". Começa a não voltar para o almoço e não chegar para o jantar. Começam as traições. O desejo de conhecer o novo. O novo lado, o novo método, o novo jeito, o novo beijo, o novo passo, o novo abraço. E tudo vira um descompasso...

Começam as intermináveis brigas, acusações, indiferenças e constatações lógicas do tipo “você não é mais a mesma pessoa por quem me apaixonei”. E não dá mais vontade de voltar pra casa depois do expediente. Qualquer lugar do mundo é melhor do que estar ao lado um do outro. Nesse meio tempo as palavras ditas, as ações, as mentiras juradas, já refletem conseqüências irreparáveis e a chegada da distância sentimental à essência da relação que não acaba aqui corrói. A chama se apaga, morre. Na cabeça a lembrança dos momentos plenos que os fizeram felizes para sempre, pelo sempre em que a paixão viveu.

2 comentários:

Alexandre Souza Nascimento - Advogado - OAB/RN 6242 disse...

Texto estranho para uma noiva ...

Maria Jurema disse...

Quando eu digo que bom é ser solteira, o povo estranha/ignora! =DDD~ A cada romance, uma nova história... Assim sendo, podendo ter muitas... Pq vou querer ter apenas uma? E que ainda por cima pode terminar de forma infeliz e deixar sequelas pro resto de minha vida. ;*